VALE - SEGURANÇA E COMPLIANCE CAMINHAM PASSO A PASSO ?
VALE - SEGURANÇA E COMPLIANCE
CAMINHAM PASSO A PASSO?
Mauro Gonçalves
E a Sirene toca ... desta vêz, em
Barão de cocais (MG), mais uma cidade que depende da mineração, onde a Cia. Vale é o maior motor da economia.
Uma de suas barragens entra no nível
3 de risco, ou seja, entrou em alerta máximo para o risco de rompimento.
Pela segunda vêz, em pouco mais de um
mês, a barragem sul superior, assusta e provoca a evacuação de casas.
Anteriormente, em 08 de fevereiro
p.p., e agora, em 22 de março o medo passou ter nome e endereço.
Gongo Soco é o nome da mina que
originou a barragem em risco.
E se repetem os fatos, já conhecidos.
Políticos se manifestam, o prefeito
afirma aos órgãos de imprensa que um treinamento de evacuação já está marcado
para segunda feira próxima.
Especialistas são entrevistados,
discordando entre si sobre o risco e providências paliativas no caso da
materialização dos riscos ou corretivas para impedir o acidente e a previsível
tragédia.
Que sinceramente, esperamos que não
ocorra.
Mas este Blog não é sobre mineração,
e nem tampouco tem foco em matérias sensacionalistas.
Como é descrito na apresentação,
destina-se a discussões sobre segurança e logística, e matérias correlatas.
Uma discussão acadêmica, visando
gerar conhecimento, provocar o senso crítico dos leitores e abrir espaço para
manifestações adequadas e construtivas.
Diante disto, vamos a uma análise
sobre procedimentos preventivos e corretivos que foram tomados ou não, pela Vale, principal responsável pelos eventos
ocorridos em Mariana (19 mortos) e Brumadinho (210 mortos até a data desta
publicação).
OPERAÇÕES COMPLEXAS
– DISCURSO CONTRADITÓRIO
Partindo do evento inicial de Mariana,
onde ocorreu o rompimento da Barragem do Fundão em 2015,
podemos avaliar a postura adotada pela Vale em relação a Segurança nas suas
várias abordagens possíveis, que vão desde a segurança das operações e
manutenção, até a segurança no entorno de barragens, incluindo-se aí não só
suas instalações como também as cidades, vilas e comunidades passíveis de serem
atingidas nestes rompimentos.
Mariana (2015) Oque
restou – foto : internet
Após a tragédia de Mariana, que
deveria ter servido de alerta para a empresa e seus gestores, iniciativas foram
tomadas para mitigar os Riscos, dentre as quais a criação de um setor
específico para aperfeiçoar a gestão de risco na área de barragens, promoção de
painéis de especialistas independentes com foco na discussão e aperfeiçoamento
da gestão de risco e segurança de estruturas geotécnicas (minas, portos e
barragens) e finalmente, a contratação de consultorias independentes
que deveriam atestar a segurança física e operacionais das demais barragens.
Era a chance de implantação de regras
e normas de gestão de riscos e segurança mais rígidas, incorporadas a um
programa de Compliance mais efetivo, que inicialmente minimizaria os mesmos,
culminando com a eliminação dos riscos.
No entanto, parece que a oportunidade
não foi bem aproveitada.
Uma das consultorias contratadas, a
Tractebel, uma das empresas de
consultoria em engenharia mais conceituadas no Brasil e com operações mundiais
em projetos de infra estrutura, energia e água, localizada em Belo Horizonte, observou que a
forma de cálculo utilizada pela Vale para cálculo de resistência e segurança de
estruturas como a da barragem que atingiu Mariana, e posteriormente aplicada em
Brumadinho estava incorreta.
E se recusou em setembro de 2018 a
assinar um documento para atestar a segurança da barragem I de Brumadinho.
A Vale então resolveu o problema...
Dispensou a Tractebel, e contratou a
consultoria TUV SUD, que assinou documentos em junho e em setembro de 2018
atestando a segurança da barragem, tendo os engenheiros da consultoria sido
pressionados para tal (vide revista Exame, em 20 de março de 2019).
Tal fato é mencionado na Recomendação
11/2019, documento conjunto elaborado pelo Ministério Público Federal,
Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Superintendência Regional de MG
da Policia Federal e Polícia Civil do Estado de Minas Gerais, disponível na
Internet para consulta e baixar, (https://www.mpmg.mp.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?fileId=8A91CFA96938453C016940F59C8F41C1) levou ao pedido de demissão enviado ao
conselho de administração da Vale de Fábio Scharvtsman e dos diretores
executivos Peter Poppinga, Lúcio Flávio
Gallon Cavalli e Silmar Magalhães Silva, dentre outros.
Vários alertas de auditorias externas
avisaram à Vale de que cálculos usados inicialmente em Mariana, e depois para
atestar a segurança da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, não
estavam dentro dos padrões aceitos na mineração.
Em uma empresa onde regras de
Compliance bem definidas fossem cumpridas, e fosse dado suporte ao setor de
segurança no quesito gestão de riscos, tais alertas não teriam sido
desconsiderados.
A JÓIA PERDENDO
VALOR - QUANTO VALE UMA VIDA ?
A Vale tinha escolhas: manter as
mesmas práticas antigas de gestão, priorizando o resguardo da empresa e seu
lucro, acima de tudo, ou se reinventar.
Conforme pode ser constatado na
leitura do documento mencionado
anteriormente, Recomendação 11/2019, preferiu ignorar e desrespeitar normas de segurança inclusive definidas e adotadas
pela própria empresa.
Segundo as apurações, a companhia operou com riscos
acima dos considerados toleráveis, validados pelo arcaico e perigoso
“modus operandi”: contratar
terceirizadas que para não perder contratos, usavam em seus laudos e análises metodologias
de validação questionáveis por institutos nacionais e internacionais de
engenharia , substituindo a quem se recusasse a assinar tais laudos.
O poderio econômico, a busca da lucratividade,
a postergação na solução de seus problemas internos e as tentativas seguidas de
esconder os antigos métodos de gestão, tem seu preço.
As investigações sobre a catástrofe,
chegaram a mais de duas centenas de mortes comprovadas e 108 desaparecidos.
Mas aparentemente, um numero tão
grande de mortes não havia impressionado o antigo CEO da Vale, Sr. Fábio Schvartsman.
“A Vale é joia brasileira que não pode ser
condenada por um acidente que aconteceu numa de suas barragens por maior que
tenha sido a sua tragédia”, disse, diante de uma atônita comissão externa da
Câmara dos Deputados que apurava a situação de barragens no Brasil.
Admitiu ainda que as medidas de
monitoramento da barragem não funcionaram.
“A Vale reconhece, humildemente, que
seja lá o que vinha fazendo, não funcionou, já que uma barragem caiu”.
Afirmou que a mineradora não sabe o
que causou a tragédia.
“Passadas essas semanas desde o
acidente, nós continuamos sem saber os motivos que causaram o acidente. Todas
as informações que nós possuíamos, que nos eram enviadas pelos técnicos da
Vale, demostravam que não havia qualquer perigo iminente sobre aquela barragem,
consequentemente, não havia nenhuma razão de alarme ou de preocupação maior da
gestão da companhia. Se nós tivessemos tido qualquer sinal relevante nessa
direção, teríamos agido em conformidade”.
Mas não foi oque disseram as
testemunhas ao depor ao MP Federal, como já vimos.
E o valor da Jóia, bem ...
Em um único dia, a Vale perdeu mais
de 70 milhões de Reais em valor de mercado.
Deixou de distribuir dividendos aos
acionistas, oque certamente vai gerar demandas judiciais.
"É preciso verificar se a
empresa informou adequadamente os riscos, se seguiu todas as exigências de
transparência previstas em lei para uma companhia de capital aberto [com ações
negociadas na Bolsa]. O acionista tem direito de saber exatamente em que está
investindo. Se ele não conhece o risco, não sabe qual é o valor correto da ação
que está comprando", disse Raphael Zaroni, fundador do escritório Zaroni
Advogados.... (https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/03/17/vale-assembleia-acionistas-suspensao-dividendos.htm)
Somado a tais fatos, existe ainda o
risco de suspensão parcial de produção, bloqueio judicial de valores e multas
que já foram orçadas em mais de 25 bilhões de reais.
Um processo administrativo foi
instaurado, para investigar os procedimentos adotados pela Vale. O referencial para
a apuração do valor da multa, seria o faturamento bruto de 2018, sobre o qual
seria aplicado a alíquota de 20%.
O trâmite do processo e da apuração
encontra-se ao cargo da secretaria de
Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia.
Já o Ministério do Trabalho, propôs
uma indenização que inicialmente solicitava que cada família recebesse no
mínimo 2 milhões de reais, porém, a Vale ofereceu em sua proposta de
indenização por danos morais a cada família, o pagamento de 300 mil reais para o cônjuge, companheiro ou companheira de
cada vítima.
Filhos receberiam 300 mil reais.
Pais e mães, receberiam 150 mil
reais.
Irmãos, 75 mil reais.
Mas os procuradores decidiram rever o
valor, e ele poderá chegar a até 9 milhões de reais, de acordo com alguns
critérios como a idade do trabalhador, salário, tempo de trabalho na Vale e se
a família perdeu mais de um integrante.
Como podemos avaliar, a jóia perdeu,
e vai perder ainda mais valor, infelizmente.
COMPLIANCE E GESTÃO
DE RISCOS
Durante
as investigações, concluiu-se que a área de geotecnia corporativa, criada depois
do desastre de Mariana para fazer a gestão de risco, atuou de forma inversa.
De
forma sistemática usou todos os meios ao seu alcance de pressão, para obter declarações
de estabilidade de barragens, em estruturas que não atendiam aos parâmetros
legais e até os definidos pela própria empresa.
O
setor de geotecnia corporativa em mais de uma oportunidade substituiu auditores
externos que se negaram a fornecer declarações úteis à mineradora.
O
caso da Tractebel, substituída imediatamente pela Tüv Süd após informar que não
seria possível declarar a estabilidade da barragem é emblemático.
Adotou-se como podemos ver, a
política de gestão à moda antiga.
Se você não tem uma solução para o
problema, esconda ele...
O importante é o lucro, o bônus e a
participação nos lucros.
Lucro 7 X 0 Gestão de riscos e
Compliance.
Um placar desumano, pelo número de
vidas perdidas.
LIÇÕES A SEREM APRENDIDAS
A Vale, apresenta em seu site uma
página com seu código de ética e conduta minucioso e detalhado, apresentado em
sua página pela ex alta direção da empresa, e nesta data, 23/03/2019, ainda não
atualizado (http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/ethics-and-conduct-office/code-of-ethics/Paginas/default.aspx).
A efetiva implantação e fiscalização,
com a avaliação de todos os questionamentos e apontamentos surgidos através dos
canais de denúncias existentes e previstos no referido código, bem como o
envolvimento efetivo de outros departamentos além do jurídico, tais como segurança patrimonial, do trabalho,
engenharia, operacional, financeiro, e outros mais, certamente vai servir para
que caminhos outros sejam encontrados pela empresa, que neste momento precisa
efetivamente se reinventar internamente, sem cultivar metodologias antigas de
gestão.
A visão de curto prazo, a busca do
lucro sem questionamentos, uma visão curta e restrita do conceito de risco, a
falta efetiva de validação e implantação de práticas internas de Compliance em
relação a Segurança operacional, física, de instalações, do trabalho e também
de meio ambiente, levaram a uma situação que podemos mensurar como crítica para
a Vale.
O impacto, se levarmos em
consideração não só o prejuízo
financeiro mas também causado à imagem da empresa, é altíssimo.
A mineradora Vale percebeu isto,
tanto é que divulga em horário nobre, nas grandes redes de comunicação rádio e
televisivas um comercial em que apresenta suas providências imediatas para
mitigar o problema.
Que a Vale, por sua dimensão
econômica e estratégica dentro de nossa balança comercial, enquanto geradora de
royalties pelo volume de exportações, capacidade de gerar empregos diretos e
indiretos na cadeia produtiva e logística, se recupere deste triste e marcante
evento.
Finalmente, desejo efetivamente
manifestar meus sentimentos para todas as famílias que perderam seus entes
queridos.
E que as famílias sejam amparadas
espiritualmente, social e financeiramente por suas perdas, estas sim, o maior
prejuízo de todos os sofridos por eles e toda a sociedade Brasileira.
Que o lamento da Sirene, nunca mais
seja ouvido.
Seja em Barão de Cocais, seja em
qualquer outro lugar deste nosso país.


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