A (in)SEGURANÇA DOS JORNALISTAS


A (in) SEGURANÇA DOS JORNALISTAS
Mauro Gonçalves

Semana difícil, confesso ...
Este artigo estava sendo escrito desde duas semanas atrás.
Seu foco era a insegurança que permeia a atividade jornalística, na América Latina como um todo, e mais especificamente, no Brasil.
Lí muito, pesquisei em arquivos disponíveis na Internet, conversei com colegas que exercem não só a atividade jornalística em sí, mas também com outros profissionais envolvidos com atividades de apoio, como jornalistas, câmeras, fotógrafos, etc...
E quando achava que o artigo estava pronto para ir para o Blog... Surpresa !!!!
Algum fato novo acontecia e ele tinha de ser reescrito, sob pena de se tornar algo não condizente com o momento.
E mais.
Ao abordar o tema Segurança, percebi a dimensão da violência a que os jornalistas, radialistas, profissionais da informação, blogueiros, ativistas e outros estão expostos.
Alguns deles vítimas de quem deveria em tese protegê-los, pois tem esta obrigação legal e constitucional.
E o artigo acabou sendo desdobrado em outro, que aborda a Violência contra a Mídia.
Materializada na forma da CENSURA, que inesperadamente tentou renascer.
Este fato, será tema de artigo a ser publicado a seguir.
E não vamos perder o foco...

A INSEGURANÇA DOS JORNALISTAS

A ONG Repórteres Sem Fronteiras divulgou esta semana o ranking de liberdade de imprensa de 2019.
E confesso, sem nenhuma surpresa, o Brasil caiu no ranking.
No ano passado, estava em 102º lugar , e caiu o para 105º lugar, dentre um universo de pesquisas de 180 países.
Ao restringir nossa comparação apenas aos países da América do Sul, o país perde para Uruguai (19º), Suriname (20º), Chile (46º), Guiana (51º), Argentina (57º), Equador (97º) e Paraguai (99º).

A ONG comenta em seu relatório que jornalistas brasileiros se tornaram alvos constantes no ano passado, e alguns sites de esquerda correram para culpar apoiadores de partidos de direita, chegando mesmo a citar o presidente Jair Bolsonaro.
Não vou adotar este discurso binário, de “Esquerda versus Direita”, limitado, e que tem em si mesmo o risco de distorcer fatos.
A verdade é que ocorreram eventos em que excessos aconteceram de ambas as partes, e as vítimas muitas vezes foram profissionais de imprensa.
Como exemplo de excessos, posso citar o caso de uma viatura da Rede de mídia que fazia a cobertura da presença do ex-Presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, e foi confundida com a viatura de outra emissora, sendo alvo de pedradas lançadas por desconhecidos.
Tal insegurança se espalhou também  para a internet, com Blogs sendo atacados, ofensas sendo feitas contra blogueiros e jornalistas, ameaças até mesmo contra a integridade física sendo feitas. 
Mas decerto, em termos mundiais as condições de trabalho para jornalistas são difíceis, em especial em países submetidos a regimes totalitários, ou próximos disto, como o caso da Coréia do Norte, e mais próximo de nós, da Venezuela.
"O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança sua atividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam seu controle sobre os meios de comunicação", afirma o relatório.
Apenas 24% dos países analisados oferecem condições boas ou satisfatórias para atuação de jornalistas.
Até nos Estados Unidos, a situação piorou, com a eleição do presidente Donald Trump, que assumiu uma postiura de confronto com os meios de comunicação.
Isto levou a uma perda de três posições em 2019.
Jornalistas americanos nunca haviam sido alvos de tantas ameaças de morte, nem mesmo no auge da discussão inflamada sobre a validade da atuação norte americana na guerra do Vietnã.
Alguns tiveram até mesmo que recorrer a empresas privadas para garantir sua segurança", segundo a  ONG.
Os piores colocados na lista são o Turcomenistão (180º), a já mencionada Coreia do Norte (179º), Eritreia (178º), China (177º) e Vietnã (176º).
E a Rússia, ocupa a 149ª posição no ranking.
Apenas para demonstrar que este risco não ocorre apenas na America Latina, podemos citar o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado de seu país na Turquia, sendo que reproduzo agora passagem do relatório da ONG, ... “enviou uma mensagem assustadora aos jornalistas para além das fronteiras da Arábia Saudita...“.
Mas emblemática é a situação relatada no relatório da Repórteres sem Fronteiras.

NO FIO DA NAVALHA

O caso da Venezuela, que perdeu cinco posições, aproximando-se da zona negra do ranking.
Inequivocamente, colabora para tal situação o viés autoritário do governo de Nicolás Maduro, que levou a um aumento da repressão contra a imprensa independente e um número recorde de prisões arbitrárias e atos de violência praticados por forças de ordem e serviços de Inteligência.
No ano passado, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) da Venezuela CHEGOU a suspender o sinal de canais de rádio e televisão considerados pelo governo como “muito críticos”,
Vários jornalistas tiveram que se auto exilar (para não dizer fugir), para preservar sua integridade e jornalistas estrangeiros foram detidos e alguns expulsos.
Cuba continuou o país pior colocado na região (169 º lugar), apesar de subir três posições, Segue o mesmo caminho a Bolívia (113º lugar).
Para a ONG, o presidente Evo Morales, segue o “modelo cubano”, controlando a informação e censurando “as vozes demasiadamente críticas “.
Pelos registros de ataques armados à imprensa, que sofre ainda com pressões e  tentativas de intimidação por parte da classe política, El Salvador caiu 15 posições e ficou em 81º lugar.

SITUAÇÃO BRASILEIRA

Não é exagero afirmar que ser jornalista no Brasil de hoje, é exercer uma profissão de risco.
Em sua versão inicial, o presente material que ora publico, reunia dados referentes a violência contra jornalistas extraídos de várias fontes, dentre os quais livros, pesquisas acadêmicas, e sites de entidades na internet.
Aqueles que quiserem se aprofundar na leitura, recomendo os sites abaixo elencados para um início de leitura e pesquisas suplementares.
Site da  Associação Brasileira dos Jornalistas investigativos : https://www.abraji.org.br/
Site da Associação Brasileira de Imprensa : http://www.abi.org.br/abert-aumenta-violencia-contra-jornalistas-no-brasil/
A FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas tem pesquisas amplas em seu site sobre tal violência : http://fenaj.org.br/relatorios-de-violencia-contra-jornalistas-e-liberdade-de-imprensa-no-brasil/ .
A leitura de tais pesquisas chega a ser alarmante!
Relatam que os casos de agressões a jornalistas cresceram 36,36%, em relação ao ano de 2017, e que 135 ocorrências de violência foram registradas, entre elas um assassinato, que vitimaram 227 profissionais.
Como já havia citado no início do texto, eleitores/manifestantes foram os principais agressores, sendo responsáveis por 30 casos de violência contra os jornalistas (22,22% do total).
Entre esse grupo, os militantes de partidos de direita, segundo a FENAJ, foram os que mais agrediram a categoria, somando 23 casos.
Porém, cabe ressaltar: ninguém é santo nesta história. Os militantes dos partidos de esquerda, estiveram envolvidos em 07 casos de violência.
Mas, se somarmos a estes 07 casos, as agressões ocorridas contra jornalistas durante a greve dos caminhoneiros, movimento fortemente influenciado por líderes, partidos e militantes políticos de esquerda, temos mais 23 casos.
Como disse, ninguém é santo...
O relatório segue, e apresenta os jornalistas que trabalham em televisão como os  profissionais mais agredidos, no ano de 2018. Um total de 77 jornalistas trabalhavam nessa mídia.
Os profissionais de jornal, são os segundos mais atingidos, com 41 casos de violência..
Mas chama a atenção no relatório de 2018, em terceiro lugar, a violência disseminada contra uma vertente da imprensa até então pouco atingida.
A mídia eletrônica, representada pelos Jornalistas/Blogueiros, que como já ocorria em anos anteriores com os Radialistas, passaram a figurar como vítimas frequentes de várias formas de violências. 
Jornalistas que trabalham em portais, sites e blogs (mídia digital), foram vitimas em 25 casos de agressão, representando 12,76% do total.
Cabe finalmente observar, que em 2017 um Blogueiro chegou a ser assassinado, segundo o mesmo relatório.
E em quarto lugar, 17 casos de agressão atingiram jornalistas que trabalham em rádio.
Outros 05 profissionais que trabalham em agências, 05 que trabalham em revistas e 3 assessores de imprensa também foram vítimas de agressões.
Finalmente, em 21 casos o local de trabalho do jornalista não foi identificado, incluindo os casos de censuras que atingiram jornalistas de diversos veículos de comunicação.
Casos de violência contra jornalistas praticados por dirigentes/técnico/torcedores de clubes foram 08 casos, seguranças, mais 08 casos, populares 05 casos, 03 casos com sindicalistas, 01 caso envolvendo um ator e, pasmem, 01 jornalista que agrediu verbalmente uma colega de profissão.
Isto relatado de forma sucinta, apenas no ano de 2018, no Brasil.

O “FOGO AMIGO”
Você amigo Jornalista saiu e cobriu sua pauta, fez suas entrevistas, colheu todos os dados possíveis, retornou para a redação e preparou a matéria com o maior capricho para publicar/enviar para bancada.
Sem ser vítima de constrangimentos ou violência. 
Sensação de dever cumprido!
Só que não...
Em dez casos relatados, profissionais foram censurados, ameaçados e até demitidos, por publicarem matérias ou divulgarem fatos e noticias que desagradaram anunciantes, políticos, amigos, ou a direção do grupo de mídia ou empresa onde trabalhavam.
Nem sempre a verdade apurada e investigada, é aquela que agrada.
Em outros casos, quem deveria zelar para que a liberdade de imprensa e expressão, que são inclusive garantidas pela própria Constituição Federal fossem preservadas, em quem ataca.
Em pelo menos 10 casos, o cerceamento veio do Poder Judiciário.
E o exemplo mais recente, aconteceu esta semana.
Mas este é assunto para a próxima publicação.
Nos vemos na próxima publicação.
Até lá .  

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